Memória da Terra

arqueologia da ancestralidade e da despossessão

do povo Xavante de Marãiwatsédé

Em agosto de 1966, após serem submetidos a uma violenta campanha de despojos e deslocamentos compulsórios durante anos, os Xavante de Marãiwatsédé foram transferidos de sua terra ancestral para uma região a mais de 400km de distância em uma operação comandada pela Força Aérea Brasileira (FAB) e autorizada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão indigenista oficial da época.

A remoção dessa população estava atrelada às políticas de “ocupação e integração” dos “vazios demográficos” implementadas pelo regime militar, nesse caso em particular para viabilizar um mega-empreendimento agropecuário conhecido como fazenda Suiá-Missu. No início dos anos 1990, após mais de duas décadas de exílio e luta, os Xavante de Marãiwatsédé conquistaram o direito ao retorno a suas terras originárias, o que vai ocorrer plenamente somente no final de 2013, quando a desintrusão da reserva indígena é finalmente realizada.

O estudo apresentado neste relatório é uma contribuição para a construção da memória desses acontecimentos, bem como para a construção da memória do próprio território originário dos A’uwe-Xavante de Marãiwatsédé. Através da análise de vários tipos e fontes de informação – incluindo registros de diversos arquivos, cartografias, testemunhos, fotografias históricas, imagens de satélite e outros dados – essa investigação examina as ações de agentes de estado para deslocar o povo Xavante com o objetivo de tomar suas terras, apresentando um mapeamento detalhado do processo de desterritorialização sofrido por essas comunidades.

Esse conjunto documental, em especial os arquivos da campanha de “atração e pacificação” dos Xavante conduzida pelo Serviço de Proteção aos Índios nas décadas de 1940-1960, ilumina a racionalidade e a intencionalidade dessas ações, bem como o papel estrutural que desempenhavam dentro das políticas de Estado, demostrando como formas de “produção de vazios demográficos” eram de fato operacionalizadas no território.

Equipe:

Paulo Tavares 

Domingos Tsereõmorãté Hö’awari

Magno Silvestri

tradução & consultoria: Caime Waiassé

gráfico: João Xavier 

modelagem: César Jordão & Fernando Bonini

motion graphics: César Jordão & Mariana Tostes

Com a colaboração dos anciãos Policarpo Waire Tserenhorã, Dario Tserewhorã e Marcelo Abaré

Parceiros:

Associação Xavante Bö'u

Requisição: 

Ministério Público Federal - PGR, 6a Câmara

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Revista O Cruzeiro, 1944
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A análise desse acervo documental também revela uma série de evidências que comprovam a presença ancestral dos Xavante em Marãiwatsédé. As primeiras expedições de “pacificação” conduzidas nos anos 1940-1950 foram extensivamente documentadas, tanto em texto como em imagens, e nos anos 1960-1970 essa região seria alvo de várias missões de mapeamento por satélite e aerofotográficos. Observados retrospectivamente, este relatório demonstra que estes registros testemunham sobre a ocupação ancestral indígena de maneira inconteste.

Em que pese às múltiplas tentativas de apagamento da presença e da história indígena na região, tentativas que ainda seguem correntes, a ocupação ancestral xavante no território de Marãiwatsédé foi documentada em diversos registros históricos, dos quais um dos mais significativos é o próprio território. O conjunto de evidências mais expressivo apresentado neste relatório consiste no mapeamento inédito de vários vestígios arqueológicos de antigas aldeias e cemitérios indígenas que são encontrados em diferentes pontos da região que os Xavante reconhecem como seu território originário.

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Reconstrução arqueológica de uma aldeia Xavante a partir da fotografia de Jean Mazon, circa 1950

Utilizando metodologias de análise visual forense, investigou-se o acervo de imagens de dois importantes projetos de mapeamento que fotografaram a região da serra do Roncador nos anos 1960 e 1970 (satélite e aerofotografias). Através da investigação dessas imagens é possível identificar certos aspectos da paisagem que indicam como o território Xavante era ocupado antes dos deslocamentos. Apesar das transformações dramáticas que tinham ocorrido nessa região devido ao avanço do desmatamento na época em que essas fotografias foram feitas, momento em que as comunidades dos Xavante já haviam sido deslocadas de suas aldeias de origem, alguns antigos assentamentos indígenas parecem ter sido tão antigos e longevos que deixaram marcas profundas no território, marcas que aparecem claramente visíveis nessas imagens.

 

Os vestígios identificados foram então analisados em relação a uma série de fotografias de antigas aldeias xavante feitas durante sobrevoos de reconhecimento da região nos anos 1940 durante a campanha de “atração e pacificação” levada a cabo pelo SPI. A forma espacial, a disposição geográfica, e a dimensão das marcas encontradas nas imagens de satélite e aerofo- tografias são compatíveis com a arquitetura dos assentamentos tradicionais xavante tal como documentada nesses registros históricos.

 

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Identificação da aldeia Bö'u, centro cultural e geopolítico to território Xavante de Marãiwatsédé, forçasamento abandonada nos anos 1950-1960. 

A partir das oficinas realizadas com os anciãos, foi possível estabelecer a identidade da maioria dos vestígios identificados. Alguns indicam sítios arqueológicos das aldeias mais antigas e significativas do território originário dos A’uwe-Xavante. Dentre outros exemplos, destacam-se a identificação do sítio de Sõrepré, primeira aldeia e centro geopolítico de todo o território ancestral A’uwe, e a identificação dos vestígios da aldeia Bö’u, centro político e cultural do território de Marãiwatsédé.

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expedição geográfica aos sítios arqueológicos das antigas aldeias Xavante com os geógrafos Domingos Tsereõmorãté e Magno Silvestre, e os anciãos Policarpo Waire Tserenhorã, Dario Tserewhorã e Marcelo Abaré

Este estudo foi produzido com o objetivo de prover subsídio pericial ao Inquérito Civil Público 1.20.004.000072/2014-82, movido pelo Ministério Público Federal – Procura- doria da República do Município de Barra do Garças, para obtenção de reparação de danos materiais e morais sofridos pelo povo Xavante de Marãiwatsédé devido à remoção forçada de seu território originário em agosto de 1966.

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formação botânica-arqueológica da antiga aldeia xavante de Tsinõ. 
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